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Esse é meu blog e isso vai ser dito assim, sem mais rodeios: eu gosto de moda. Eu gosto tanto de moda que recebo emails diários do whowhatwear.com, tenho o livro do sartorialist e falo coisas do tipo “eu li na Elle”, hahaha. Mas aí eu paro e penso “teve um dia na minha vida em que eu li Adorno e achei que ele estava certo”.

Sim, bem vindos a grande crise dos últimos tempos. Vejam, não é uma crise sobre ler a Elle ou a Nylon, é uma crise sobre ter um profundo interesse e, por que não?, um certo amor por coisas que contradizem tudo que eu racionalmente penso. Como querer ir para duas direções completamente opostas e inconciliáveis.

Sim, eu acho que moda pode ser arte, que é  forma de expressão e mensagem e, se não fosse, nós não daríamos tanta atenção a figurinos e que meu interesse por ela provavelmente deriva do interesse por artes plásticas e cinema, composição visual e tal e afinal, o Metropolitan tem um costume institute. Mas cada vez que eu me vejo em frente ao meu armário aberto pensando em como isso é sem graça demais, aquilo menininha demais, aquilo rock demais, se eu deveria mesmo das tanta atenção a isso?

Sabe, eu daria tudo para ser Sofia Copolla “sou tão cool que faço filmes sobre o desconforto na modernidade enquanto desenho bolsas para a Louis Vuiton”. Mas eu não sou, e não sendo eu fico me colocando em perguntas que não sei responder como “Eu posso querer ser uma intelectual e sair na Elle? assim tudo ao mesmo tempo?”

Mas como esse blog nada mais é que uma página na internet com pouquíssima audiência e feedback menor ainda me sinto na liberdade de ser sim contraditória. A partir de hoje, podem dar boas-vindas a alguns posts de moda por aqui.

E a minha outra conclusão de hoje foi: Margot Tennenbaum é minha maior inspiração em contrastes.

Feliz Ano Novo

No fim de 2008 eu achei que 2009 seria o ano que eu conseguiria tudo. Era o ano que anunciava as mudanças, era o ano do qual eu esperava muito.

2009 começou bem, começou sob os fogos de copacabana, com meu namorado e meu melhor amigo em um dos melhores reveillons que eu já tive. Mas em 2009 nada aconteceu, pelo menos nada do que eu esperava que fosse acontecer. Algumas coisas mudaram, eu mudei, eu vi lugares que nunca tinha visto e fui feliz. Mas fui feliz pela simples sensação de que era, porque foi um ano repleto de decepções doloridas, de dias ruins, de aniversários ruins.

Em 2010 eu estou em Nova York. Sozinha, eu não esperava nada do ano novo. O melhor amigo voltou pra longe, a melhor amiga foi para o mundo maravilhoso do intercâmbio e eu vim, ver o mundo assim, aos pedaços deixando lá em casa a única pessoa com quem eu realmente queria estar hoje.

A bola estava lá, a bola não estava mais lá, acabou o ano em NY. Acabou meu ano. Eu gosto muito de ano-novo, mas nesse, talvez pela perda da noção de tempo que a gente sempre tem quando viaja, eu não estava ansiosa, não esperava nada e pouco teria me importado de dormir. Eu sinto saudades, quero voltar pra casa, mas estou em paz. Digo, em paz com esse ano que vem. Porque dele eu nada espero.

Eu nada espero de 2010 porque é o ano em que as coisas tem que mudar, independente de mim ou de pareceristas para os quais eu desejo a morte. Em 2010 as coisas vão acabar, e eu lembro sempre daquela música que diz “closing time, every new begining comes for some other beginings end”. Eu não posso fazer nada sobre 2010, nada pode fazê-lo um ano como os outros. Talvez não seja bom, mas não vai ser o mesmo e isso me é suficiente.

Eu te espero 2010, mas eu não corro para você.

Não sei se foi o mundo que ficou muito igual, ou eu que fiquei muito sem raízes, mas me sinto mais ou menos em casa em praticamente qualquer lugar.

Em alguns mais menos do que mais. Cidadezinhas americanas por exemplo. Nova York te quero agora!

Infância

Faz tempo que não aparecia um conto por aqui, mas a verdade é que eu ando com poucas opções nesse sentido… Mas vamos lá (feedback nesse post por favor!!)

Infância

Ela disse que era algo que havia acontecido há muito tempo, o que me soou estranho, porque ela parecia jovem demais para ter memórias de muito tempo atrás.

Mas ela tinha mesmo um ar cansado, velho, tão velho que eu quase podia ver pequenas rugas em volta de seus olhos verdes. Mas talvez fosse apenas porque ela sorria com os olhinhos muito apertados.

É engraçado, porque ela era também uma garotinha. Ela saltitava um pouco enquanto andava, batia palmas quando sorria e tinha toda uma leveza. Mas talves fosse a leveza de quem não tem laços. De alguém cujos pés não chegam nunca a tocar o chão.

Eu era muito pequena, ela continuou, e eu reparei em como ela ainda era bastante pequena. Eu era muito pequena, usava um vestido rosa acho, provavelmente rosa, eu estava na fase do rosa. E pequenos sapatinhos brancos de boneca, minúsculos. Acho que a visão desses sapatos nunca me deixou.

Eu pisava, um após o outro, amassando levemente a grama e ouvindo como por trás de um vidro o ruído das crianças que riam e brincavam na festa de aniversário. Me aproximei de uma outra menina, uma amiguinha, algo como minha melhor amiga na época.

Eu lhe perguntei porque fazíamos aniversário, ela respondeu que era porque crescíamos. Sim, eu disse, mas por que “anos”? E por que esses números e não outros? Aliás, por que números? Ela deu de ombros. Porque sim, porque é assim. Eu parei e pensei, fiquei quieta por alguns segundos, percebendo pelo olhar dela que eu deveria me contentar com essa resposta.

Foi uma lição importante aquele dia, ela disse, desviando os olhos de mim e focando o nada, um pouco triste. Essa garota foi minha melhor amiga por muitos anos. E por que não mais? Ela aprendeu a lição dela bem demais.

(ouvindo “The Fragile” *desenha um coração cheio de amor por NIN*)

Eu já falei de Karen Blixen há pouquinho tempo atrás, porque todo o tempo que eu estava lendo “A Fazenda Africana” eu fiquei obcecada com ela. Com o ohar dela pelos nativos, com a força, a independência dela, a paixão sem medidas pela África e ao mesmo tempo uma maneira tão inocente de se agarrar aos costumes europeus.

“A Fazenda Africana” é repleto dos melhores personagens, o Kamante fala as coisas de uma forma tão fora do nosso pensamento, o Farah é mais nobre e mais digno que os reis que ela recebe, o líder kikuio que usava pele de leão enquanto andava de carro, o espírito livre do Denys Finch-Haton. Mas eu continuava obcecada com ela, Karen Blixen.

As vezes eu venho aqui escrever mais ou menos tecnicamente, com alguma propriedade, sobre filmes. Mas eu não tenho nenhuma propriedade para falar de livros, exceto o quanto eu gosto deles. E eu gosto muito desse “Out of Africa”, não como eu gosto Dostoievski, que grita na minha cara o quanto ele é um gênio, eu gosto da Karen Blixen afetivamente, embora ela seja também genial, durante a leitura do “Anedotas do Destino”, mas principalmente desse livro ele cresceu em mim como alguém que eu amo, amo mesmo morta e dinamarquesa e sei lá… amo porque ela torna o mundo belo. E não de uma maneira falsa-otimista-poliana (eu detesto a Poliana!), mas vendo a beleza no mundo como ele é, na morte e na dor.

Então de uma certa forma a Karen Blixen me ganhou pela identificação. Pela identificação em ver a beleza no mundo assim, exatamente como ele é, e amar a vida exatamente como ela é. Reconhecendo que ela é bem ruim na maior parte do tempo, mas amando-a por um simples amor às coisas belas.

Mas é preciso fazer jus e dizer que ela escrever maravilhosamente, de uma forma tão simples, tão dela, com metáforas que ninguém mais no mundo poderia ver e tão bem arranjado. Sabe um prédio do Niemeyer? Tão simples que é super complexo? Mais ou menos assim. E no final, quando ela deixa a África (não estou contando final nenhum, o livro chama “Out of Africa” oras) é a coisa mais triste que eu já li em toda a minha vida de leitora assídua de Charles Dickens! Não porque ela se lamente, muito pelo contrário, mas porque ela ama tanto aquele altiplano, porque ela só tem coisas lindas a dizer e ela vai ter que deixá-lo inevitavelmente. E aí está a beleza, em aceitar o trágico. Para Karen Blixen a vida não é ruim, é trágica.

Mas em bem pouco tempo minha nova obsessão vai ser Emily Dickinson, aguardem os próximos capítulos.

Proibido Fumar

“Proibido Fumar” é o filme novo da Ana Muylaert, aquela do “Durval Discos”, o filme foi super aclamado em Brasília, a crítica não cansa de elogiar a Glória Pires, bla, bla, bla… sinceramente? Não Gostei.

Engraçado que é o primeiro filme que eu venho aqui dizer com todas as letras que não gostei. A maioria eu gosto, apesar de um ou outro problema. Não esse, esse eu não gosto, apesar de um ou outro ponto forte.

Ponto forte: ela consegue fazer personagens clichês que soam reais. A velhinha que quer aprender violão porque “é tão bonito” (se você já fez francês sabe exatamente o que eu to falando), a mulher que adora Chico Buarque porque “ele é politizado, e ele entende a mulher assim, sabe?” clichê, mas com certeza você conhece alguém assim (eu conheço, bleh). Mas por outro lado ela faz clichês que soam extremamente forçados, como o Max, personagem do Paulo Miklos (atuando bem aliás, mas a km de distância de “O Invasor”), o cara que não para de falar da ex. Eu entendo que ela queira trabalhar em uma chave do senso comum, legal, as vezes funciona, as vezes não. E o que não funciona chama mais atenção do que o que funciona.

Na verdade, para mim, o maior problema do filme é esse: ela quer fazer um filme sobre o comum, o ordinário, sobre o amor sem glamour que as pessoas levam adiante apenas para não ficarem sozinhas. O problema é que os personagens dela são esquisitos, não são gente comum! Veja, que tipo de mulher de 40 anos, por mais estranha, solteirona e infantil que seja usa maria-chiquinha? E mora em um apartamento que a cenografia quer dizer ser o apartamento da mãe que ela não mudou nada, mas não parece um apartamento de uma velha senhora que já morreu, mas uma exposição de estampas florais. Para falar de gente comum, vamos ser comum, não estilizados, há milhões de filmes falando de gente de verdade muito melhor do que esse.

E na realidade, eu não sei quem vai ao cinema para ver simplesmente um retrato, sem opinião, sem crítica, sem nem mesmo exaltação. Cadê a opinião da diretora sobre essa tal classe média decaída que ela está retratando? No filme não está. E se ela não acha nada, quis simplesmente mostrar esse mundo, então pra que o filme? Se ela tem uma opinião, mas não quis expressar para não conduzir o espectador, mais uma vez, pra que o filme? No final é um negócio que se arrasta por 80 minutos (sim, só uma hora e vinte, mas parece muito mais) e você sai do cinema do mesmo jeito que entrou.

As Meninas

Hoje fui ver a peça “As Meninas”, adaptação do livro da Lygia Fagundes Telles que é, de longe, um dos meus favoritos. E fiquei muito bem impressionada, nunca tinha visto um livro tão bem adaptado para algum outro meio, a essência da obra tão bem captada e traduzido. Nada é supérfluo na peça, assim como nada falta.

A peça, e o livro, fala de três meninas, Lorena, Lia e Ana Clara vivendo um pensionato de freiras mais ou menos liberais em 73, o ano menos liberal da história do Brasil. Lorena é filha de uma rica família tradicional, delicada, frágil, irônica e profunda. Lia é comunista, envolvida na luta armada, Lia é Lião. E Ana Clara é linda e miserável, mais miserável por que linda, drogada e piedosa, se afunda em cocaína enquanto sente queimar o coração de Jesus que ganhou de Madre Alix.

O livro é longo, mais ou menos 300 páginas, enquanto a peça tem apenas 80 minutos, no entanto o cerne do romance está todo ali. Se foram excluídos os longos devaneios de Lorena, os flashbacks de Ana Clara e os desvios da Lia com um garoto do grupo armado, um garoto que não é seu namorado, pode-se entender perfeitamente cada uma daquelas meninas e porque de se contar essa história.

Achei especialmente boas as interpretações, a intensidade, o histerismo de Ana Clara, o artificialismo de Lorena (que na realidade não passa de um personagem de si mesma) e a intensidade e coloquialismo de Lia, as atrizes estão perfeitas. Ate a mãe de Lorena em seu luto eterno e antecipado ao mesmo tempo, a maquiagem sempre borrada, o retrato da amargura e da dignidade perdida que não quer se reconhecer.

A peça respeita ainda a estrutura do livro, onde todas as histórias confluem para o quarto de Lorena, que vê tudo com um olhar opaco. A própria personagem, a mais sutil e complexa das três, está ali em todas as suas facetas, a menina boba que vemos no final ser aquela com mais clareza de pensamento, sua alienação é na realidade niilismo e seu romantismo uma renuncia a um mundo que ela vê apenas com olhos pessimistas.  Adorei pessoalmente a ideia de haver uma menina sempre assistindo a outra, feliz, triste ou com raiva das atitudes tomadas pela amiga, a aflição por não poder protege-las de tudo.

Enfim, a peça faz mais do que transpor uma história, ela transpões uma atmosfera, um mundo, um espírito. E eu que vivo correndo contra o tempo para poder ler tudo o que quero, me decidi a reler “As Meninas.