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Posts Tagged ‘beleza’

Eu vou voltar pra cá, é só que as coisas estão e não estão acontecendo e tudo isso me paralisa. Eu tenho um stop-motion pra fazer, em conjunto com um povo bem legal, e em breve uma coluna em uma revista da internet (a ser divulgada aqui mais tarde). Ao mesmo tempo eu espero ligações para entrevistas de estágios e a minha gatinha que ainda não chegou.

Eu poderia vir aqui e falar de como eu nunca esperei estar aqui onde estou agora, e de como a menina que eu fui 5 anos atrás teria desprezo por mim. Poderia… mas ao mesmo tempo eu acho que a menina que eu fui 5 anos atrás também sentiria uma pontinha de orgulho porque talvez as coisas ainda aconteçam.

Eu já não escrevo daquele jeito lindo e metafórico de antes, provavelmente porque eu já não tenho muito a esconder uma vez que, e essa foi a descoberta mais dolorosa dos últimos tempo, eu não tenho nada a perder. Eu queria escrever como antes, eu poderia dizer qualquer coisa banal da maneira mais bonita possível. Hoje em dia eu tenho que de fato dizer alguma coisa.

Eu quero voltar pra cá, mas eu não sei exatamente o que ainda faz sentido escrever.

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A Fazenda Africana

Eu já falei de Karen Blixen há pouquinho tempo atrás, porque todo o tempo que eu estava lendo “A Fazenda Africana” eu fiquei obcecada com ela. Com o ohar dela pelos nativos, com a força, a independência dela, a paixão sem medidas pela África e ao mesmo tempo uma maneira tão inocente de se agarrar aos costumes europeus.

“A Fazenda Africana” é repleto dos melhores personagens, o Kamante fala as coisas de uma forma tão fora do nosso pensamento, o Farah é mais nobre e mais digno que os reis que ela recebe, o líder kikuio que usava pele de leão enquanto andava de carro, o espírito livre do Denys Finch-Haton. Mas eu continuava obcecada com ela, Karen Blixen.

As vezes eu venho aqui escrever mais ou menos tecnicamente, com alguma propriedade, sobre filmes. Mas eu não tenho nenhuma propriedade para falar de livros, exceto o quanto eu gosto deles. E eu gosto muito desse “Out of Africa”, não como eu gosto Dostoievski, que grita na minha cara o quanto ele é um gênio, eu gosto da Karen Blixen afetivamente, embora ela seja também genial, durante a leitura do “Anedotas do Destino”, mas principalmente desse livro ele cresceu em mim como alguém que eu amo, amo mesmo morta e dinamarquesa e sei lá… amo porque ela torna o mundo belo. E não de uma maneira falsa-otimista-poliana (eu detesto a Poliana!), mas vendo a beleza no mundo como ele é, na morte e na dor.

Então de uma certa forma a Karen Blixen me ganhou pela identificação. Pela identificação em ver a beleza no mundo assim, exatamente como ele é, e amar a vida exatamente como ela é. Reconhecendo que ela é bem ruim na maior parte do tempo, mas amando-a por um simples amor às coisas belas.

Mas é preciso fazer jus e dizer que ela escrever maravilhosamente, de uma forma tão simples, tão dela, com metáforas que ninguém mais no mundo poderia ver e tão bem arranjado. Sabe um prédio do Niemeyer? Tão simples que é super complexo? Mais ou menos assim. E no final, quando ela deixa a África (não estou contando final nenhum, o livro chama “Out of Africa” oras) é a coisa mais triste que eu já li em toda a minha vida de leitora assídua de Charles Dickens! Não porque ela se lamente, muito pelo contrário, mas porque ela ama tanto aquele altiplano, porque ela só tem coisas lindas a dizer e ela vai ter que deixá-lo inevitavelmente. E aí está a beleza, em aceitar o trágico. Para Karen Blixen a vida não é ruim, é trágica.

Mas em bem pouco tempo minha nova obsessão vai ser Emily Dickinson, aguardem os próximos capítulos.

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Hoje fui ver a peça “As Meninas”, adaptação do livro da Lygia Fagundes Telles que é, de longe, um dos meus favoritos. E fiquei muito bem impressionada, nunca tinha visto um livro tão bem adaptado para algum outro meio, a essência da obra tão bem captada e traduzido. Nada é supérfluo na peça, assim como nada falta.

A peça, e o livro, fala de três meninas, Lorena, Lia e Ana Clara vivendo um pensionato de freiras mais ou menos liberais em 73, o ano menos liberal da história do Brasil. Lorena é filha de uma rica família tradicional, delicada, frágil, irônica e profunda. Lia é comunista, envolvida na luta armada, Lia é Lião. E Ana Clara é linda e miserável, mais miserável por que linda, drogada e piedosa, se afunda em cocaína enquanto sente queimar o coração de Jesus que ganhou de Madre Alix.

O livro é longo, mais ou menos 300 páginas, enquanto a peça tem apenas 80 minutos, no entanto o cerne do romance está todo ali. Se foram excluídos os longos devaneios de Lorena, os flashbacks de Ana Clara e os desvios da Lia com um garoto do grupo armado, um garoto que não é seu namorado, pode-se entender perfeitamente cada uma daquelas meninas e porque de se contar essa história.

Achei especialmente boas as interpretações, a intensidade, o histerismo de Ana Clara, o artificialismo de Lorena (que na realidade não passa de um personagem de si mesma) e a intensidade e coloquialismo de Lia, as atrizes estão perfeitas. Ate a mãe de Lorena em seu luto eterno e antecipado ao mesmo tempo, a maquiagem sempre borrada, o retrato da amargura e da dignidade perdida que não quer se reconhecer.

A peça respeita ainda a estrutura do livro, onde todas as histórias confluem para o quarto de Lorena, que vê tudo com um olhar opaco. A própria personagem, a mais sutil e complexa das três, está ali em todas as suas facetas, a menina boba que vemos no final ser aquela com mais clareza de pensamento, sua alienação é na realidade niilismo e seu romantismo uma renuncia a um mundo que ela vê apenas com olhos pessimistas.  Adorei pessoalmente a ideia de haver uma menina sempre assistindo a outra, feliz, triste ou com raiva das atitudes tomadas pela amiga, a aflição por não poder protege-las de tudo.

Enfim, a peça faz mais do que transpor uma história, ela transpões uma atmosfera, um mundo, um espírito. E eu que vivo correndo contra o tempo para poder ler tudo o que quero, me decidi a reler “As Meninas.

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Karen Blixen

Karen Blixen sabia ver a beleza do mundo. A beleza da lua na noite africana, a poesia da fala dos kikuios e a magia de estar em lugares onde nunca esteve. Eu sempre achei que se precisava conhecer bem um lugar para escrever personagens que caminhem por suas ruas, mas ela me provou, com seus contos sobre a Pérsia e a China que se você inventar com beleza o suficiente, ninguém irá perceber.

Eu estou pela página 200 de “A Fazenda Africana”, e me dói cada vez que penso que ela vai deixar aquele altiplano. Mas também acabei de ver “Out of Africa”, o filme, aquele com a Maryl Streep bem novinha, na televisão. É um bom filme. Um bom filme para um livro extraordinário. E uma história delineada para alguém que nada mais fez do que registrar sensações. Concretizar a beleza do mundo.

Mas então eu ouço da minha mãe “ela teve uma vida dura”. Talvez, mas vejamos, era 1918 quando ela se separa e assume sozinha o controle de sua fazenda de café no Quênia, quando ela conduz problemas infinitos, da morte acidental de crianças a números de venda, quando conhece de mulheres muçulmanas a lobos do mar dinamarqueses. Quando ela se apaixona por um homem por demais livre. É claro que foi dura, porque ela esteve sozinha com sua vida entre as mãos.

Então faz sentido dizer isso? Eu apenas acho que a vida dela foi bela. Tão bela quanto Lulu, sua linda e arredia gazela. Eu acho pequeno achar que foi triste a vida dela. Foi linda, mas triste teria sido se não tivesse sido dura.

No fundo, esse post não é diferente do anterior, apenas mais poética.

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