Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘cinema brasileiro’

Proibido Fumar

“Proibido Fumar” é o filme novo da Ana Muylaert, aquela do “Durval Discos”, o filme foi super aclamado em Brasília, a crítica não cansa de elogiar a Glória Pires, bla, bla, bla… sinceramente? Não Gostei.

Engraçado que é o primeiro filme que eu venho aqui dizer com todas as letras que não gostei. A maioria eu gosto, apesar de um ou outro problema. Não esse, esse eu não gosto, apesar de um ou outro ponto forte.

Ponto forte: ela consegue fazer personagens clichês que soam reais. A velhinha que quer aprender violão porque “é tão bonito” (se você já fez francês sabe exatamente o que eu to falando), a mulher que adora Chico Buarque porque “ele é politizado, e ele entende a mulher assim, sabe?” clichê, mas com certeza você conhece alguém assim (eu conheço, bleh). Mas por outro lado ela faz clichês que soam extremamente forçados, como o Max, personagem do Paulo Miklos (atuando bem aliás, mas a km de distância de “O Invasor”), o cara que não para de falar da ex. Eu entendo que ela queira trabalhar em uma chave do senso comum, legal, as vezes funciona, as vezes não. E o que não funciona chama mais atenção do que o que funciona.

Na verdade, para mim, o maior problema do filme é esse: ela quer fazer um filme sobre o comum, o ordinário, sobre o amor sem glamour que as pessoas levam adiante apenas para não ficarem sozinhas. O problema é que os personagens dela são esquisitos, não são gente comum! Veja, que tipo de mulher de 40 anos, por mais estranha, solteirona e infantil que seja usa maria-chiquinha? E mora em um apartamento que a cenografia quer dizer ser o apartamento da mãe que ela não mudou nada, mas não parece um apartamento de uma velha senhora que já morreu, mas uma exposição de estampas florais. Para falar de gente comum, vamos ser comum, não estilizados, há milhões de filmes falando de gente de verdade muito melhor do que esse.

E na realidade, eu não sei quem vai ao cinema para ver simplesmente um retrato, sem opinião, sem crítica, sem nem mesmo exaltação. Cadê a opinião da diretora sobre essa tal classe média decaída que ela está retratando? No filme não está. E se ela não acha nada, quis simplesmente mostrar esse mundo, então pra que o filme? Se ela tem uma opinião, mas não quis expressar para não conduzir o espectador, mais uma vez, pra que o filme? No final é um negócio que se arrasta por 80 minutos (sim, só uma hora e vinte, mas parece muito mais) e você sai do cinema do mesmo jeito que entrou.

Read Full Post »

Como eu disse no post anterior, em termos de cinema eu sou meio eclética, o que torna esse blog meio eclético. Se na sexta a tarde eu estava leve vendo “Julie e Julia” a meia noite e meia de sábado pra domingo enfrentei uma longa fila para ver “O Natimorto”.

Confesso que eu não fazia a menor ideia do que se tratava o filme. Sabia que era baseado em um livro do Mutarelli (e eu adorei “O Cheiro do Ralo”, o filme, não li o livro) e eu tinha visto o diretor em uma mesa sobre filmes de baixo orçamento na semana da comunicação. Eu gostei quando ele disse que tinha feito um filme com três atores e um quarto de hotel, eu gosto de filmes assim, incrivelmente simples, mas que devem dizer algo.

Então fui, desavisada, exceto de que o próprio Mutarelli aparecia no filme. E “Natimorto” é um bom filme. Percebemos desde já que títulos atrativos não são o forte do escritor, mas neste caso o natimorto do título é algo muito mais metafórico e conceitual do que o cheiro do ralo (que não deixa de ser metafórico, mas está lá, presente). O natimorto, eu pensei depois, talvez sejamos nós, nossos planos. Esses seres humanos (todos) condenados a acabar já no momento em que surgem. Não sei, apenas me parece assim.

No filme um “caça-talentos” (é o máximo de informação que temos do personagem) encontra uma soprano que vem de outra cidade para apresenta-la a um maestro. Eles tomam um café e ele a acompanha ao seu hotel, da onde diz não querer sair. Assim de repente, sem a menor explicação ele propõe a ela que vivam ali, naquele quarto, enquanto durar seu dinheiro, pois o mundo é um lugar muito cruel. Ela hesita, sente-se lisonjeada por ser eleita a única pessoa do mundo com a qual vale a pena estar, mas o mundo não lhe parece cruel. Ela o entende, conheceu sua mulher, neurótica e histérica, mas não pode realmente alcança-lo. Mas ela aceita que ele fique, enquanto ela continua com sua vida normal.

A partir daí o filme se confina e nos sufoca em um jogo estranho de tentar prever uma vida que não pode ser nada diferente daquilo, pois o personagem de Mutarelli compra cigarros todo dia e tenta ler nas imagens dos maços como será seu dia, baseando-se no conhecimento que tem de cartas de tarô. Mas como pode prever alguma coisa de um destino já tão fatídico? Não há mais que a desgraça naquele quarto de hotel, nem pra ele, nem para ela, que após um curto envolvimento com o maestro sentirá o desprezo e a dureza do mundo onde pretendia entrar. Um mundo onde apenas ele pode ser bom.

Enquanto filme, eu prefiro “O Cheiro do Ralo”, mais bem montado, mais bem decupado, mais bem conduzido em geral. Mas é inegável que a claustrofobia de “O Natimorto” confere a história um peso maior e consequentemente ao filme, que me parece patinar demais as vezes, parece ser feito com uma mão muito pouco segura, para a história perturbadora que é. Há uma incoerência de interpretação também, enquanto a mulher do personagem de Mutarelli possui uma interpretação muito natural, e ele não soa improvável devido a perturbação do personagem a moça, interpretada por Simone Spoladore, parece terrivelmente impostada, dizendo frases que soam reais em um livro, mas não quando alguém realmente as diz. É um filme arriscado, talvez demais, e derrapa um tanto.

Mas eu gosto do filme, pela vontade de filmar uma história forte e pela vontade de dizer alguma coisa apesar de todos os poréns técnicos e de linguagem. “O Natimorto” é uma vontade de comunicar, mais que a vontade de fazer um bom cinema. Talvez o filme não seja tão bom pelo que é, mas como exemplo e  possibilidade para o que deveríamos estar fazendo

Read Full Post »