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Suspensão

Como eu disse que não ia só postar coisas escritas especialmente para o blog, começo com um conto que escrevi para o concurso da livraria cultura, não gosto do final, mas ja tinha esgotado o espaço permitido, haha. Vou ver se volto a mexer nele:

Suspensão

Ela sentou-se em uma das poltronas escuras, quase desabando. Seu corpo respondeu bem ao toque do couro macio e algo dentro dela pareceu sorrir ao perceber a atmosfera familiar. Olhou em volta por alguns segundos, sem saber se lia seu próprio livro, se buscava um em alguma das prateleiras ou se simplesmente observava.  Estava tão exausta que se decidiu por observar. Ainda assim, por um momento seu olhar vagou, sem que seu pensamento pudesse fixar em algo. Despertou então vendo entrar uma moça apressada, de saia e botas de salto alto e um lindo casaco comprido.

Pensou se poderia ser como aquela moça em alguns anos, ou talvez em alguns meses. Sempre desejara a metrópole, a vida independente e desapegada, mas agora… Agora sentia falta de casa e se retraia como uma pequena tartaruga frente aos convites de pessoas com as quais não tinha nenhuma afinidade. Tudo lhe parecia estranho e hostil, incluindo a casa onde morava. Tudo, exceto talvez aquela livraria. Tinha estado lá tantas vezes antes de mudar-se para a cidade, com a mãe ou mesmo aquelas horas sozinhas esperando que voltasse de um curso.

A livraria cheirava, obviamente, a livros. E livros eram familiares. Livros não podiam ser hostis, ou estranhos a ela. Ali, sentia-se em casa. Mais em casa até do que jamais se sentira, experimentando o contraste com o eterno desconforto que sentia lá fora. Por que isso? Por que tanta dor e tanto medo então? Por que a dificuldade em se desapegar da mãe e da vida antiga e ordinária? Talvez não estivesse pronta ainda, pronta para ser obrigada a lidar com pessoas das quais sempre fugira, ou pronta para assumir que sua insatisfação era maior que apenas aquilo.

Maior que aquela cidade e aquelas pessoas? Maior que aquela mediocridade circunscrita? Talvez disesse respeito a toda a mediocridade. Ou talvez a todo o mundo. Havia algo de errado com ele, não havia? Algo de torto e falso. Algo sempre hostil. Algo sempre superficial e falso, algo que sempre se retraia ao seus afiados olhos claros, que queriam sempre ver mais a fundo. E se a vida fosse aquilo? só aquilo. Só essa insatisfação eterna, esse frustrar-se eterno. Esse sempre correr atrás de um horizonte que nunca é, nunca ter o que se espera.

Mas naquele momento, sentada em uma poltrona excessivamente confortável , ela sentia o cheiro de café e observava uma garotinha que corria, e a moça que conversava com um namorado. E pensava que ali, entre aquelas paredes amplas e aquelas estantes intermináveis o mundo podia ser bom ou ruim, mas não era falso. Eram mais verdadeiras as palavras dentro dos livros, e as pessoas quando se encontravam cercadas por ele. O lugar era mágico e os livros não possuem tempo ou pátria, e por isso ela se sentia tão bem lá dentro. No único lugar onde se estava cercado de profundidade.

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