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Posts Tagged ‘Lygia Fagundes Telles’

Hoje fui ver a peça “As Meninas”, adaptação do livro da Lygia Fagundes Telles que é, de longe, um dos meus favoritos. E fiquei muito bem impressionada, nunca tinha visto um livro tão bem adaptado para algum outro meio, a essência da obra tão bem captada e traduzido. Nada é supérfluo na peça, assim como nada falta.

A peça, e o livro, fala de três meninas, Lorena, Lia e Ana Clara vivendo um pensionato de freiras mais ou menos liberais em 73, o ano menos liberal da história do Brasil. Lorena é filha de uma rica família tradicional, delicada, frágil, irônica e profunda. Lia é comunista, envolvida na luta armada, Lia é Lião. E Ana Clara é linda e miserável, mais miserável por que linda, drogada e piedosa, se afunda em cocaína enquanto sente queimar o coração de Jesus que ganhou de Madre Alix.

O livro é longo, mais ou menos 300 páginas, enquanto a peça tem apenas 80 minutos, no entanto o cerne do romance está todo ali. Se foram excluídos os longos devaneios de Lorena, os flashbacks de Ana Clara e os desvios da Lia com um garoto do grupo armado, um garoto que não é seu namorado, pode-se entender perfeitamente cada uma daquelas meninas e porque de se contar essa história.

Achei especialmente boas as interpretações, a intensidade, o histerismo de Ana Clara, o artificialismo de Lorena (que na realidade não passa de um personagem de si mesma) e a intensidade e coloquialismo de Lia, as atrizes estão perfeitas. Ate a mãe de Lorena em seu luto eterno e antecipado ao mesmo tempo, a maquiagem sempre borrada, o retrato da amargura e da dignidade perdida que não quer se reconhecer.

A peça respeita ainda a estrutura do livro, onde todas as histórias confluem para o quarto de Lorena, que vê tudo com um olhar opaco. A própria personagem, a mais sutil e complexa das três, está ali em todas as suas facetas, a menina boba que vemos no final ser aquela com mais clareza de pensamento, sua alienação é na realidade niilismo e seu romantismo uma renuncia a um mundo que ela vê apenas com olhos pessimistas.  Adorei pessoalmente a ideia de haver uma menina sempre assistindo a outra, feliz, triste ou com raiva das atitudes tomadas pela amiga, a aflição por não poder protege-las de tudo.

Enfim, a peça faz mais do que transpor uma história, ela transpões uma atmosfera, um mundo, um espírito. E eu que vivo correndo contra o tempo para poder ler tudo o que quero, me decidi a reler “As Meninas.

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