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Posts Tagged ‘mediocridade’

Faz tempo que não aparecia um conto por aqui, mas a verdade é que eu ando com poucas opções nesse sentido… Mas vamos lá (feedback nesse post por favor!!)

Infância

Ela disse que era algo que havia acontecido há muito tempo, o que me soou estranho, porque ela parecia jovem demais para ter memórias de muito tempo atrás.

Mas ela tinha mesmo um ar cansado, velho, tão velho que eu quase podia ver pequenas rugas em volta de seus olhos verdes. Mas talvez fosse apenas porque ela sorria com os olhinhos muito apertados.

É engraçado, porque ela era também uma garotinha. Ela saltitava um pouco enquanto andava, batia palmas quando sorria e tinha toda uma leveza. Mas talves fosse a leveza de quem não tem laços. De alguém cujos pés não chegam nunca a tocar o chão.

Eu era muito pequena, ela continuou, e eu reparei em como ela ainda era bastante pequena. Eu era muito pequena, usava um vestido rosa acho, provavelmente rosa, eu estava na fase do rosa. E pequenos sapatinhos brancos de boneca, minúsculos. Acho que a visão desses sapatos nunca me deixou.

Eu pisava, um após o outro, amassando levemente a grama e ouvindo como por trás de um vidro o ruído das crianças que riam e brincavam na festa de aniversário. Me aproximei de uma outra menina, uma amiguinha, algo como minha melhor amiga na época.

Eu lhe perguntei porque fazíamos aniversário, ela respondeu que era porque crescíamos. Sim, eu disse, mas por que “anos”? E por que esses números e não outros? Aliás, por que números? Ela deu de ombros. Porque sim, porque é assim. Eu parei e pensei, fiquei quieta por alguns segundos, percebendo pelo olhar dela que eu deveria me contentar com essa resposta.

Foi uma lição importante aquele dia, ela disse, desviando os olhos de mim e focando o nada, um pouco triste. Essa garota foi minha melhor amiga por muitos anos. E por que não mais? Ela aprendeu a lição dela bem demais.

(ouvindo “The Fragile” *desenha um coração cheio de amor por NIN*)

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Proibido Fumar

“Proibido Fumar” é o filme novo da Ana Muylaert, aquela do “Durval Discos”, o filme foi super aclamado em Brasília, a crítica não cansa de elogiar a Glória Pires, bla, bla, bla… sinceramente? Não Gostei.

Engraçado que é o primeiro filme que eu venho aqui dizer com todas as letras que não gostei. A maioria eu gosto, apesar de um ou outro problema. Não esse, esse eu não gosto, apesar de um ou outro ponto forte.

Ponto forte: ela consegue fazer personagens clichês que soam reais. A velhinha que quer aprender violão porque “é tão bonito” (se você já fez francês sabe exatamente o que eu to falando), a mulher que adora Chico Buarque porque “ele é politizado, e ele entende a mulher assim, sabe?” clichê, mas com certeza você conhece alguém assim (eu conheço, bleh). Mas por outro lado ela faz clichês que soam extremamente forçados, como o Max, personagem do Paulo Miklos (atuando bem aliás, mas a km de distância de “O Invasor”), o cara que não para de falar da ex. Eu entendo que ela queira trabalhar em uma chave do senso comum, legal, as vezes funciona, as vezes não. E o que não funciona chama mais atenção do que o que funciona.

Na verdade, para mim, o maior problema do filme é esse: ela quer fazer um filme sobre o comum, o ordinário, sobre o amor sem glamour que as pessoas levam adiante apenas para não ficarem sozinhas. O problema é que os personagens dela são esquisitos, não são gente comum! Veja, que tipo de mulher de 40 anos, por mais estranha, solteirona e infantil que seja usa maria-chiquinha? E mora em um apartamento que a cenografia quer dizer ser o apartamento da mãe que ela não mudou nada, mas não parece um apartamento de uma velha senhora que já morreu, mas uma exposição de estampas florais. Para falar de gente comum, vamos ser comum, não estilizados, há milhões de filmes falando de gente de verdade muito melhor do que esse.

E na realidade, eu não sei quem vai ao cinema para ver simplesmente um retrato, sem opinião, sem crítica, sem nem mesmo exaltação. Cadê a opinião da diretora sobre essa tal classe média decaída que ela está retratando? No filme não está. E se ela não acha nada, quis simplesmente mostrar esse mundo, então pra que o filme? Se ela tem uma opinião, mas não quis expressar para não conduzir o espectador, mais uma vez, pra que o filme? No final é um negócio que se arrasta por 80 minutos (sim, só uma hora e vinte, mas parece muito mais) e você sai do cinema do mesmo jeito que entrou.

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