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Posts Tagged ‘pessimismo’

Como eu disse no post anterior, em termos de cinema eu sou meio eclética, o que torna esse blog meio eclético. Se na sexta a tarde eu estava leve vendo “Julie e Julia” a meia noite e meia de sábado pra domingo enfrentei uma longa fila para ver “O Natimorto”.

Confesso que eu não fazia a menor ideia do que se tratava o filme. Sabia que era baseado em um livro do Mutarelli (e eu adorei “O Cheiro do Ralo”, o filme, não li o livro) e eu tinha visto o diretor em uma mesa sobre filmes de baixo orçamento na semana da comunicação. Eu gostei quando ele disse que tinha feito um filme com três atores e um quarto de hotel, eu gosto de filmes assim, incrivelmente simples, mas que devem dizer algo.

Então fui, desavisada, exceto de que o próprio Mutarelli aparecia no filme. E “Natimorto” é um bom filme. Percebemos desde já que títulos atrativos não são o forte do escritor, mas neste caso o natimorto do título é algo muito mais metafórico e conceitual do que o cheiro do ralo (que não deixa de ser metafórico, mas está lá, presente). O natimorto, eu pensei depois, talvez sejamos nós, nossos planos. Esses seres humanos (todos) condenados a acabar já no momento em que surgem. Não sei, apenas me parece assim.

No filme um “caça-talentos” (é o máximo de informação que temos do personagem) encontra uma soprano que vem de outra cidade para apresenta-la a um maestro. Eles tomam um café e ele a acompanha ao seu hotel, da onde diz não querer sair. Assim de repente, sem a menor explicação ele propõe a ela que vivam ali, naquele quarto, enquanto durar seu dinheiro, pois o mundo é um lugar muito cruel. Ela hesita, sente-se lisonjeada por ser eleita a única pessoa do mundo com a qual vale a pena estar, mas o mundo não lhe parece cruel. Ela o entende, conheceu sua mulher, neurótica e histérica, mas não pode realmente alcança-lo. Mas ela aceita que ele fique, enquanto ela continua com sua vida normal.

A partir daí o filme se confina e nos sufoca em um jogo estranho de tentar prever uma vida que não pode ser nada diferente daquilo, pois o personagem de Mutarelli compra cigarros todo dia e tenta ler nas imagens dos maços como será seu dia, baseando-se no conhecimento que tem de cartas de tarô. Mas como pode prever alguma coisa de um destino já tão fatídico? Não há mais que a desgraça naquele quarto de hotel, nem pra ele, nem para ela, que após um curto envolvimento com o maestro sentirá o desprezo e a dureza do mundo onde pretendia entrar. Um mundo onde apenas ele pode ser bom.

Enquanto filme, eu prefiro “O Cheiro do Ralo”, mais bem montado, mais bem decupado, mais bem conduzido em geral. Mas é inegável que a claustrofobia de “O Natimorto” confere a história um peso maior e consequentemente ao filme, que me parece patinar demais as vezes, parece ser feito com uma mão muito pouco segura, para a história perturbadora que é. Há uma incoerência de interpretação também, enquanto a mulher do personagem de Mutarelli possui uma interpretação muito natural, e ele não soa improvável devido a perturbação do personagem a moça, interpretada por Simone Spoladore, parece terrivelmente impostada, dizendo frases que soam reais em um livro, mas não quando alguém realmente as diz. É um filme arriscado, talvez demais, e derrapa um tanto.

Mas eu gosto do filme, pela vontade de filmar uma história forte e pela vontade de dizer alguma coisa apesar de todos os poréns técnicos e de linguagem. “O Natimorto” é uma vontade de comunicar, mais que a vontade de fazer um bom cinema. Talvez o filme não seja tão bom pelo que é, mas como exemplo e  possibilidade para o que deveríamos estar fazendo

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